terça-feira, 22 de março de 2011

Há algum tempo, publiquei neste espaço certas reflexões sobre a composição musical que mais amo, o quarteto de cordas nº15, op. 132, do Beethoven. Hoje, novamente, pretendo falar à minha maneira de uma outra obra pela qual sou completamente apaixonado: o concerto para piano e orquestra nº 1, de Johannes Brahms.

Se me é permitido escolher, dentre os gênios disponíveis, um compositor para preferir, tal compositor certamente seria (atualmente) Brahms. Apesar de, a meu ver, Ludwig Van ter dado à humanidade a coisa mais bela, desconcertante, fantástica e profunda que o gênio humano foi capaz de produzir (o já mencionado quarteto nº15, que certamente redimirá os pecados de toda a humanidade caso o mundo realmente acabe ano que vem), O bom Johannes conseguiu igualar seu conterrâneo em brilhantismo por ter construído uma obra que, no todo, é quase que completamente irretocável: escute qualquer coisa minimamente bem interpretada dele que, garanto, ficarás extasiado, embriagado, maravilhado.

Porém, mesmo em meio a composições de nível tão elevado, ouso separar uma peça que para mim está acima das outras. Tal peça é, justamente, o já mencionado concerto nº 1. Inserido no universo brahmniano, cuja “linha mestra” é, no meu entendimento, a busca incessante pela máxima expressão da subjetividade humana, o concerto nº 1 parece apresentar uma diferença em relação a seus, digamos, irmãos e irmãs, ao possuir uma estrutura essencialmente narrativa.

Nesse concerto, segundo minha livre interpretação, o que acontece é um diálogo entre uma subjetividade ao mesmo tempo sutil, bela e sensível, e a sobriedade grandiosa de um mundo exterior que a tenta sufocar. Os berros desse mundo exterior, na maioria das vezes tão silenciosos e ao mesmo tempo tão fatais fora da música, ganham nela uma voz gigante e esplendorosa, magnífica em sua fatalidade, que já nas primeiras notas do primeiro movimento apresentam suas prerrogativas. Em seguida a isso, tímida e frágil, a voz doce do piano vai surgindo quase que melancólica, tentando atingir a luz da expressão, sendo constantemente interrompida em seu caminho ascendente pelos urros imperativos da orquestra, que não aceita de forma alguma o seu germinar.

O segundo movimento, eu interpreto como uma espécie de resignação melancólica da voz engolida pelo mundo, que ali encontra uma orquestra um pouco mais condescendente e disposta a conversar. Incrível notar o quanto aquela resignação parece sempre levemente esperançosa, sem nunca descambar para a tristeza niilista de negar a si e ao mundo. Linda, ela se apresenta em toda a sua profundidade, que vai além de categorias tolas e puras do “triste” e do “feliz”. Ela simplesmente precisa existir, e está consciente de que a existência requer, sim, um pouco de conformar-se. Essa conformação, entretanto, nunca se transforma em “dizer não à vida”; isso porque, no fim das contas, o pianista está dedilhando seu piano.

No terceiro movimento, portanto, parece-me que o timbre antes triste e solitário do piano se mistura à orquestra, numa celebração vívida da condição humana. Afinal, apesar de o mundo nos arrastar por vezes como se nada fôssemos, somos capazes de manipulá-lo minimamente, nem que essa manipulação seja meramente o fato de nós o enxergarmos com nossos próprios olhos. Por vezes hesitante, o apreço pelo mundo ao seu redor vai ocupando espaços cada vez maiores na expressão do instrumento de concerto, que no fim das contas, ainda um pouco desconfiado, celebra a vida com a orquestra.

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